02 de abril de 2015

2ª Mostra Internacional de Sp

Por Adriana Sá Moreira

tags: festival internacional



A 2ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, organizada entre 6 e 15 de Março, proporcionou uma seleção de espetáculos provenientes da Alemanha, Colômbia, Holanda, Israel, Itália, Rússia, Suíça, Ucrânia e, inclusive, do Brasil. Além das apresentações das peças realizadas pelas companhias teatrais desses países, uma série de palestras e workshops com interesses e aprofundamentos específicos foram ministrados para que discussões e reflexões sobre o universo teatral fossem os co-protagonistas desta Mostra. Afinal, o pensamento crítico sobre esses eventos artísticos é uma das principais forças-motrizes não só das discussões, mas também da realização dos espetáculos. E isso ficou muito claro durante a 2ª MITSP.

O teatro, o cinema e os possíveis diálogos: uma nova forma de contar histórias

Quando recebemos a notícia que um único evento tornará possível a presença de peças de países com histórias, aspectos culturais, realidades e idiomas tão diferentes, logo pensamos que estaremos diante de espetáculos tão distintos entre si que não haverá nenhuma possibilidade de qualquer diálogo entre eles. No entanto, não foi o que aconteceu na 2ª MITSP. Foi impressionante perceber peças com referências artísticas (dos pontos de vista estético e temático) muito semelhantes entre si e, às vezes, com um mesmo ponto de partida da história narrada, que permitiam um contato direto entre elas e, concomitantemente, um novo olhar ao espectador sobre a essa história por elas contada.

Um exemplo dessa particularidade pode ser percebido nas apresentações das peças “Julia” , concebida ( e com o texto adaptado) pela diretora e dramaturga carioca Christiane Jatahy com a Companhia Vértice de Teatro, e “Senhorita Julia”, uma realização anglo-alemã dos diretores Katie Mitchell e Leo Warner com a companhia Schabühne am Lehniner Platz. Essas duas montagens trouxeram à tona o texto clássico do dramaturgo August Strindberg,“Senhorita Julia”, e utilizaram recursos de encenação muito semelhantes, como instrumentos relacionados à linguagem audiovisual (projeções, câmeras e microfones). Esses recursos, juntamente com os demais elementos da cenografia, permitiam novas formas (parecidas e ao mesmo tempo muito diferentes) de contar o emblemático texto de Strindberg.

Existem dois pontos interessantes que podem ser levantados a partir dessa paridade de espetáculos: a condição de uma história de 1887 que se mantém extremamente atual e que consegue despertar o interesse do espectador ainda hoje. E a aproximação de linguagens artísticas que anteriormente poderiam ser consideradas completamente diferentes e dissociáveis: o cinema e o teatro. Nas duas montagens, fica extremamente claro que a teatralidade está em evidência, ou seja, ainda podemos dizer que estamos vendo uma apresentação teatral. Mas com a utilização pertinente da linguagem cinematográfica, é possível delinear novas formas de contar uma história consagrada (mesmo quando duas montagens do mesmo texto utilizam recursos dessa linguagem), sem deixar de lado a presença da encenação teatral. Outro espetáculo que conseguiu fazer essa aproximação de linguagens primorosamente foi “Arquivo”, do diretor e coreógrafo Arkadi Zaides, que com depoimentos que denotam o olhar de um palestino e suas possíveis formas de se expressar, frente a um contexto marcado por violência e inseguranças constantes. Dessa forma, nota-se nessas montagens que uma justaposição de linguagens pode enriquecer o desenvolvimento de uma dramaturgia e estimular novas formas de “fazer teatro” e de desenvolver histórias.

O universal e o particular das relações familiares: uma convivência descrita em linha tênue

Outros espetáculos da 2ª MITSP que contaram de diferentes maneiras histórias e discussões muito presentes na nossa sociedade foram “As Irmãs Macaluso”, concebido pela diretora italiana Emma Dante e encenada pela Compagnia Sud Costa Occidentale; “E Se Elas Fossem Para Moscou”, adaptação do texto de Tchekhov “As Três Irmãs” e mais um trabalho na Mostra de Christiane Jatahy com a Companhia Vértice de Teatro ; “Canção de Muito Longe”, monólogo dirigido pelo holandês Ivo Van Hove e interpretado por Eelco Smits; e por fim, dirigidos pelo colombiano Jorge Hugo Marín e encenados pela Fundación La Maldita Vanidad Teatro: “Morrer de Amor” e “Matando o Tempo”. Essas quatro peças apresentam a convivência familiar como contexto principal, evidenciando aspectos universais como relações complexas entre pais e filhos e entre irmãos ou irmãs, as vontades individuais sufocadas pelos valores e pelas tradições familiares ou ainda, as diferenças geracionais que impõem cenários marcados por divergências e conflitos constantes. Mas cada uma delas, apesar desses possíveis diálogos, apresentam pontos particulares.

Em “As Irmãs Macaluso” percebe-se a influência do contexto sócio-cultural italiano (mais especificamente, do sul da Itália) nas articulações conflituosas de uma família formada por sete irmãs. Já na peça “E Se Elas Fossem Para Moscou”, o que prevalece é a contextualização temporal de uma história clássica, com a evidência dos desejos e vontades dessas novas mulheres e irmãs que ( independentemente da situação social ou histórica) possuem sonhos, rancores, conflitos internos, contada também através de um intercâmbio entre linguagens teatral e cinematográfica. Em “Canção de Muito Longe”, é possível ver uma bela intensidade de divergências de sentimentos otimistas e pessimistas de um jovem banqueiro que no velório do irmão é levado a refletir sobre o seu passado e seu futuro.

Nas peças “Morrer de Amor” e “Matando o Tempo” o contexto sócio-cultural colombiano também é bastante influente no desenvolver de suas narrativas revelado tanto na dramaturgia, quanto na encenação. Ambas as peças foram encenadas em casas na cidade de São Paulo para poder aproximar o espectador das situações domésticas e familiares que os personagens estariam vivenciando. O suicídio de um filho, na peça “Morrer de Amor”, e um almoço de família na peça “Matando o Tempo”, revelam conflitos paternalistas, disputas entre irmãos e a insistência de perdurar a imagem da tradição familiar. As duas montagens abordam essas questões de maneira muito cuidadosa e permitem uma vivência de “espectador-participante”: ao assistir você realmente sente que está naquela situação junto com os personagens.

Entre referências artísticas, construção de significados e dramaturgia : a busca por uma nova teatralidade

Na 2ª MITSP percebe-se não somente uma busca por novas formas de contar histórias, mas também por novos limites do que é fazer teatro. O espetáculo “A Gaivota”, texto clássico de Tchekhov, foi encenado pelo diretor Yuri Butusov e trouxe uma experiência completamente inovadora mesmo para aqueles que já conheciam a história. Além de ter sido apresentada em russo, a montagem trouxe recursos visuais, coreográficos e musicais e diversos elementos cenográficos que renderam mais de quatro horas de dedicação dos atores em cada sessão - e posso dizer com certeza que valeu a pena cada minuto dessa vivência.

Uma das maiores surpresas da 2ª MITSP foi o espetáculo “Stifters Dinge”, montagem suíça-alemã dirigida por Heiner Goebbels. Uma instalação que literalmente interpreta e que permite a perfeita sincronia entre música, artes visuais e teatro. Com a utilização de elementos como gravações de diálogos em vários idiomas, projeções, objetos cenográficos variados (desde pianos desconstruídos a suportes de tanques de água), luzes que definiam os diferentes movimentos das composições musicais, a peça é inspirada na obra do artista austríaco Adalbert Stifter e proporcionou uma visão absolutamente inovadora sobre o que é realizar uma montagem teatral.

E por falar de visões inovadoras, as peças “Woyzeck”, dirigida pelo ucraniano Andriy Zholdak, e “Opus Nº7”, dirigida pelo russo Dmitry Krymov, conseguiram ousar tanto do ponto de vista estético, quanto do ponto de vista de adaptação e de construção de narrativa. Em “Woyzeck”, bastante diferente das outras montagens do texto de George Büchner, percebe-se uma encenação rigorosamente mais expressiva dos atores, um cenário repleto de imagens construídas e que carregam um significado importantíssimo, como se fossem outros personagens. E em “Opus Nº7” realmente foi possível ficar sem palavras e não tirar os olhos dessa montagem maravilhosa. Um trabalho riquíssimo de cenografia que juntamente com os atores, conta o sofrido período de perseguição aos judeus soviéticos durante o regime de Stalin, delineando também um contexto particular dessa época que foi a vida do compositor russo Dmitry Shostakavich. Um trabalho com uma sensibilidade ímpar e que com certeza foi um grande destaque da 2ª MITSP.

Visto a diversidade e a combinação das peças teatrais escolhidas para participar da 2ª MITSP, pode-se dizer que esse evento foi muito bem sucedido, não somente do ponto de vista da presença de público nas apresentações ( visto a procura dos ingressos e as sessões lotadas dos espetáculos). Inclusive, se ela conseguisse atingir cada vez mais espectadores que estão ávidos para conhecer novas peças teatrais, e também, aqueles que não costumam ir ao teatro, a Mostra poderia estimular ainda mais o conhecimento e o envolvimento das pessoas com o universo teatral. Mas também é importante dizer é que esse evento apresentou com sucesso um panorama de espetáculos com pesquisas e investigações artísticas preciosas, com novas propostas de encenação, atores que apresentaram os mais diversos repertórios individuais de criação e que contaram (ou “re-contaram”) histórias sensíveis e cativantes. Com isso, mal posso esperar pela 3ª MITSP. E que esse evento seja uma constante no nosso calendário cultural na cidade de São Paulo.


Adriana Sá Moreira
Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero.
Publicitária pela ESPM e Atriz pelo Célia Helena-Teatro Escola.
Entusiasta do universo teatral com suas histórias e transformações.
Fundadora e editora de conteúdo do AmoTeatro.




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