10 de junho de 2015

Bilac Vê Estrelas: Tudo Marveiê!

Por Adriana Sá Moreira

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A peça “Bilac Vê Estrelas” é a mais nova montagem de João Fonseca e uma bela homenagem a cidade do Rio de Janeiro, ao poeta Olavo Bilac e a outros personagens importantes da história do Brasil, como José do Patrocínio e Santos Dumont. O espetáculo é uma adaptação feita por Heloisa Seixas e por Julia Romeu da obra homônima de Ruy Castro e convida o espectador a conhecer uma divertida e musical aventura.

Depois de ficar em cartaz no Rio de Janeiro, chega a São Paulo esta comédia musical com grande sintonia do elenco e da produção, que estão trabalhando juntos desde a montagem “Era no Tempo do Rei” (outra adaptação da obra homônima de Ruy Castro encenada em 2009).

Entre canções, coreografias, diálogos e elementos cênicos que contribuem para o espectador conseguir imaginar a cidade do Rio de Janeiro em 1903, a peça apresenta diferentes referências de gênero; situando-se entre a comédia musical e a chanchada. Com isso, mais do que ser uma montagem divertida, “Bilac Vê Estrelas” é uma apresentação de diversos olhares e elementos que compõem a cultura brasileira, tanto do ponto de vista histórico, como artístico.

Essa justaposição de referências pode ser contemplada principalmente nas músicas do espetáculo. Compostas por Nei Lopes, especialmente para essa montagem, elas revelam uma grande e extremamente cativante brincadeira com muitos estilos musicais; passando pelo maxixe, modinha, xote e incluindo até o fado português. De acordo com Rafaela Amado, diretora assistente do espetáculo, o processo de criação das músicas foi concomitante a organização da dramaturgia, o que garantiu uma unidade de criação impressionante: “quando recebemos o texto adaptado, este já apresentava as inserções nas cenas referentes às músicas que tinham sido compostas. E depois veio o papel da direção para ajustar as intenções, as coreografias, as canções nas vozes dos atores e organizar tudo em um conjunto só.”

Tudo isso justifica um grande desenho de uma montagem muito bem “orquestrada” e que não esquece de buscar em todas as cenas uma teatralidade evidente que se usa de poucos elementos de cena e de cenário para criar um universo de possibilidades para o espectador. E além de todo esse processo de criação bem estruturado, a montagem apresenta um olhar sobre uma aventura, que muitos considerariam insana no começo do século XX: a construção de um zepelim para transportar pessoas pelos ares.

E como protagonista dessa história está Olavo Bilac que muitos ainda lembram como “o expoente do Parnasianismo na Literatura Brasileira”, mas alguns se esquecem que ele tinha um lado muito romântico e corajoso. E nessa ficção, segundo Rafaela, esse lado fica bastante evidente. “Eu, particularmente, acho muito divertido a história de colocar um poeta como Olavo Bilac, que a gente normalmente estuda na escola como o autor do poema “Ouvir Estrelas”, e na peça a gente vê um outro lado dele: um lado que escreve poemas super apaixonados, um lado pessoal do convívio com os amigos e com os poetas da época.”

“Bilac Vê Estrelas” consegue trazer um resgate histórico da “Belle Époque” do Rio de Janeiro, situada no início do século XX, e ainda sim apresentar uma história ficcional intrigante com personagens reais que viveram nessa época (e que com isso, podem dizer muito sobre esse contexto) e que apareceram na peça de forma muito mais viva. E tudo isso é contato entre diálogos muito bem adaptados e canções que conseguem traduzir muito da história do Brasil e das relações sociais da época. Um ótimo exemplo de um musical brasileiro com canções originais e que além disso, é incrivelmente encantador.

Adriana Sá Moreira
Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero.
Publicitária pela ESPM e Atriz pelo Célia Helena-Teatro Escola.
Entusiasta do universo teatral com suas histórias e transformações.
Fundadora e editora de conteúdo do AmoTeatro.



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