01 de julho de 2015

Denise Fraga e Galileu Galilei: "o Teatro Faz a Palavra Pular"

Por Adriana Sá Moreira

tags: brecht entrevista



Galileu Galilei é a nova aventura em que Denise Fraga, Cibele Forjaz, Ary França, Rodrigo Pandolfo, Lúcia Romano, Maristela Chelala, Vanderlei Bernardino, Jackie Obrigon, Luís Mármora, Silvio Restiffe e Théo Werneck embarcaram e que apresentam para o público no Teatro TUCA, aqui em São Paulo. Em uma agradável conversa com Denise Fraga, foi possível entender mais sobre a peça e sobre o processo de criação desse trabalho impressionante.

A peça é um precioso olhar de Bertold Brecht pela história de Galileu Galilei. Sim, ele mesmo! Aquele que estudamos nas aulas de História como o cientista que desafiou a visão da Igreja sobre a posição da Terra no Universo, apontando que na verdade, o nosso planeta fazia a translação ao redor do Sol, e não o contrário como era afirmado antigamente. Muito mais do que isso, Galileu foi o responsável por muitos conhecimentos nas áreas da Física, Matemática e Filosofia e é considerado o “pai da ciência moderna”, mas por conta de suas pesquisas não irem de acordo com o pensamento crítico da época, acabou tendo problemas com a Igreja e suas teorias refutadas naquele contexto.

A peça Galileu Galilei e o dramaturgo Bertold Brecht

Por se tratar de um texto de Brecht, a história desse personagem oferece uma vasta gama de possibilidades para apresentar ao espectador o teatro como agente transformador da sociedade. Em seus textos, a presença do encantamento com a utilização de músicas, coros, um grande elenco e um cenário de uma plasticidade impressionante são recursos estéticos que se alinham com essa gama de possibilidades para que as pessoas sejam envolvidas pela história narrada, mas que não se esqueçam que estão no teatro e que é no teatro que a sociedade pode se transformar. E tendo em vista essa história narrada, é possível se reconhecer no personagem Galileu quando trazemos o atual contexto social em que vivemos à tona.

Com isso, não tive dúvidas e perguntei para Denise Fraga sobre a possibilidade da peça dialogar diretamente com nossos atuais contextos sócio-político e econômico, e fiquei muito bem surpreendida ao perceber que esse diálogo é muito mais próximo do que pensava, de acordo com a resposta da atriz:

“Eu acho a peça muito propícia e muito poderosa. Eu acho que a gente vive em um momento onde a gente não se sabe onde se segurar. Nossos ideais estão completamente abalados. e a gente não sabe onde colocá-los. Eu acho que a gente vive um grande dilema, e é um dilema que permeia épocas, mas agora mais do que nunca. A grande questão é como manter vivos em alguma parte os nossos ideais, como achar brechas para esses ideais e ao mesmo tempo servir a essas estruturas de poder e às estruturas econômicas que a gente inventou pra viver.”

A atriz mostrou-se bastante envolvida não somente com a história de Galileu Galilei, mas também com o autor, pois conheceu suas obras com maior profundidade ao preparar-se para a montagem "A Alma Boa de Setsuan" (encenada em 2008). Desde então, encantou-se por sua dramaturgia e declara sua forte identificação com Brecht, quando perguntei sobre como ela definia sua relação com o autor e qual era o aspecto que mais a impressionava sobre a sua dramaturgia:

”Brecht é um autor que eu sempre vou ler e sempre vou voltar porque ele tem muito que eu quero dizer… Eu adoro o Brecht por que ele não te deixa uma mensagem ou uma moral da história, ele te deixa uma pergunta. Ele te deixa uma questão…E eu acho que a coisa mais legal é quando eu consigo divertir alguém e deixar essa pessoa em um estado de reflexão…Eu não quero que essa pessoa saia daqui com verdade nenhuma. Eu quero que essa pessoa saia daqui mexida e pensando sobre a sua própria vida e sobre que vida quer levar.”

O texto de Brecht e o espectador de Galileu Galilei

Tendo em vista essa forte (e muito positiva) relação de Denise Fraga com Brecht, e por mais que me agrade muito ver montagens dos seus textos e com essa talentosa atriz, uma questão que não saía da minha mente era: “ Afinal, quem vem assistir ao espetáculo Galileu Galilei, consegue perceber esses aspectos tão preciosos da dramaturgia de Brecht? Será que a existência de uma série de lacunas educacionais no país impedem que as pessoas que assistam ao espetáculo entendam essa proposta de encenação? E eu fiquei muito impressionada com a resposta de Denise:

“Um dos meus baratos tanto com a Alma Boa de Setsuan e com o Galileu Galilei (quando eu descobri Brecht), é levar Brecht para quem não o conhece. O teatro não precisa de premissa nenhuma… O teatro a meu ver, não pode exigir paciência da plateia e nem pré-requisitos… O teatro tem que ser encantador… Eu acho que a gente tem que prestar atenção porque podemos levar o que a gente quiser pra qualquer plateia… Pra ser popular você não precisa descer degraus, você precisa ser claro. E eu acho que uma das coisas que me move como atriz é eu pegar um texto e trazer clareza a ele. Eu adoro quando a pessoa pergunta pra mim “mas quem fez a adaptação?”, quando não tem a adaptação, porque são as palavras do autor do século XIX e quem trouxe a clareza desse texto foi um ator… Tem uma expressão que eu adoro que é “ o teatro faz a palavra pular” e uma das coisas que é um barato pra mim é fazer a palavra pular de um livro empoeirado pra mente das pessoas. E muitas vezes essas pessoas jamais leriam, ainda mais dramaturgia, (é difícil ler dramaturgia) e o teatro traz a elas um outro caminho daquilo que é universal, que atravessa o tempo. E eu acho que não precisa conhecer Brecht pra ver uma peça do Brecht.”

Mais do que talvez conhecer somente o autor, existe aqui um importante pensamento sobre a disponibilidade de se surpreender, tanto como espectador, como ator também. Denise com essa declaração reflete sua visão sobre a importância do teatro para a sociedade, bem como sobre o ofício de atuar, uma vez que durante o processo de montagem da peça Galileu Galilei, segundo ela mesma, questionou-se se deveria realmente interpretar esse personagem e dar vida a essa história:

“Eu fico muito feliz de montar essa peça porque me renova as esperanças de montar um teatro que eu acredito, que eu fiquei com muito medo que ela não fosse bem comunicada, muito pelo fato de eu ser uma mulher fazendo, porque eu queria muito dizer esse texto para as pessoas porque eu acho que nós precisamos dele. E é muito bom quando você consegue essa comunicação e o público entende e fala “obrigada por dar palavras àquilo que eu sentia e não sabia dizer”. Com isso, percebe-se que se é um lugar que as possibilidades se multiplicam e a vontade de dizer e de traduzir algo para uma plateia prevalece, esse lugar é o teatro.

O ofício do ator e a transformação pelo encantamento

Reconhecendo Denise Fraga por tantos outros trabalhos que tenham uma ligação mais evidente com o cômico ou com a comédia, talvez muitas pessoas (que não tenham visto anteriormente a peça "Alma Boa de Setsuan") tenham algum estranhamento ao vê-la realizando essa montagem de Galileu Galilei. E ao perguntar sobre essa relação da percepção do público com sua variedade de personagens como atriz, Denise demonstrou uma lucidez impressionante e trouxe à tona um importante aspecto da dramaturgia de Brecht:

“Eu gosto muito da palavra divertir, porque aquilo que te diverte te tira do lugar e te faz entrar em um outro lugar fértil pra comunicação. Por isso até que o Brecht falava nos diários dele “divertir para comunicar” e ele falava que o espetáculo nunca deveria deixar de ser divertido. E ser divertido significa você estar em estado de encantamento. Mas ao mesmo tempo, o Brecht também fala “você está no teatro, você é um agente transformador “. Ele mesmo em sua historia ele usa de uma boa trama, de música e de muitas coisas que tenham encantamento, mas ele chega e retoma, “mas não esquece que você é quem faz isso”. Alguns vão dizer que é um pensamento bastante racional, com certeza. Mas quem disse que não somos racionais no teatro? Por que afinal, com certeza sairemos transformados depois de ver um espetáculo que realmente nos encante, mas que também nos promova mudanças.

Dentre uma vasta programação de peças teatrais na cidade de São Paulo, que também encantam e nos transformam, com certeza Galileu Galilei é uma delas. É com muita alegria que eu reflito sobre esse espetáculo e declaro que a premissa de Denise Fraga se cumpre com muita clareza e com muito encantamento: com certeza ao acabar de assistir ao espetáculo, muitas pessoas vão pensar sobre muitos aspectos. E para a alegria dos espectadores, se depender da vontade dessa talentosa e brilhante atriz, ela não vai parar tão cedo de nos surpreender e de nos encantar.

“Essa é a minha utopia, mas eu acho que o teatro tem esse poder de mesmo que minimamente um espectador que seja por noite. Mas eu acho que o teatro, ainda mais por ser esse ritual ao vivo por ser alguma coisa que ficou cada vez mais rara, esse pacto de fé entre tantas pessoas em uma sala que ficam às vezes horas sentadas ali em silêncio e com um estado de atenção e de concentração coletiva, tem um poder transformador imenso, por isso eu quero cada vez mais fazer o teatro onde eu me aproprie de ideias que eu quero dizer.” Denise Fraga

Adriana Sá Moreira
Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero.
Publicitária pela ESPM e Atriz pelo Célia Helena-Teatro Escola.
Entusiasta do universo teatral com suas histórias e transformações.
Fundadora e editora de conteúdo do AmoTeatro.



Mais informações sobre a peça