01 de setembro de 2015

Gustavo Gasparani e Ricardo III

Por Adriana Sá Moreira

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O ator Gustavo Gasparani está novamente em cartaz com o texto clássico de Shakespeare,"Ricardo III", no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. A peça apresenta uma nova leitura sobre uma das histórias mais encenadas do dramaturgo inglês e essa aventura rendeu ao ator a indicação de Melhor Ator ao Prêmio APCA do 1º semestre de 2015. Confira aqui a nossa conversa com o ator e programa-se para assistir ao espetáculo.



1) Como foi o processo de montagem do espetáculo e como surgiu a ideia de realizar “Ricardo III” como um monólogo?

Gustavo Gasparani: “Ricardo III” talvez seja uma das peças mais montadas do Shakespeare e possui um dos personagens que mais fascina os atores. Pessoalmente, eu sempre gostei de Shakespeare muito mais pela forma poética como ele fala sobre o ser humano. Quando eu estava fazendo a peça “Édipo Rei” (2013), eu acabei encontrando o Sérgio Módena (diretor da peça “Ricardo III”) e ele falou que estava querendo montar “Ricardo III”. E eu, já querendo muito saber sobre quem seria o seu protagonista, perguntei: “E quem vai fazer o papel do Ricardo III?”, e ele disse: “Você!” E como eu ainda estava fazendo o “Édipo Rei” ficamos de conversar mais pra frente.

Quando o Sérgio Módena voltou de viagem, nós nos encontramos e ele falou para mim que gostaria muito de fazer o “Ricardo III” na forma de monólogo. E eu no começo achei uma loucura, mas depois eu olhei isso como um desafio que ele tinha me proposto. E depois de muito conversar com o Sérgio, eu me dei conta que ao invés de procurar justificativas para mostrar porque esse personagem estava sozinho ali no palco, eu deveria assumir que sou um ator que está ali contando a história. E depois de muito estudar e ver as críticas sobre o espetáculo, percebemos que a peça é muito centrada no protagonista e que as cenas em que ele não estava, a peça tomava uma outra direção menos interessante. E isso nos deu uma segurança para assumir essa proposta de realização de um monólogo. Fizemos um roteiro antes para separar as partes que seriam destinadas aos solilóquios do personagem (que mantivemos em verso) e as partes que seriam responsáveis em contextualizar historicamente a peça e para dar a continuidade da narrativa. Estudamos e propusemos as marcações de forma bem detalhada e acredito que tudo ficou pronto mesmo logo antes de estrear, porque queríamos um espetáculo que tivesse essas transições de “ator-personagem” muito bem estabelecidas e que fossem muito desenvolvidas de forma natural nessa escolha de ser um monólogo.

2) Você como artista observa que o público ao assistir a peça espera mais participar de um contexto cultural socialmente construído, o qual é definido por “é necessário assistir a uma peça de Shakespeare, então vou assistir”, ou existe uma expectativa do público de ver uma boa montagem e ter uma experiência de conhecer ou rever uma história (sendo ela de Shakespeare ou não)?

Gustavo Gasparani: Eu acredito que exista essas duas situações. Tem aquelas pessoas que assistem porque querem ter contato com um grande autor do teatro mundial e participar desse contexto cultural e falar para as pessoas que foi e tem pessoas que vão e nem sabe que história é. Acredito que muito disso aconteça por conta da peça ter sido apresentada em espaços com ingressos acessíveis. E eu percebi essa situação também quando eu fiz a minha adaptação do texto “Otelo”, chamada “Otelo da Mangueira”, eu apresentei na quadra da Mangueira, no Rio de Janeiro. E você podia dizer que toda a sociedade estava lá porque você encontraria Amir Haddad, Renata Sorrah, Chico Diaz e você encontraria ao mesmo tempo os meninos da Mangueira que foram com os pais, um morador de rua que entrou lá no espaço, o pessoal do movimento O Morro É Nosso. Todos estavam lá assistindo e a maioria não fazia ideia de quem era quem, mas estavam lá vendo aquele espetáculo. E foi muito bacana porque aconteceu algumas vezes de acabar a peça e o pessoal do movimento O Morro É Nosso chegava pra mim e falava: “Nossa! Você contou a história da minha mãe.” E eu explicava falando que essa história era uma peça tinha sido escrita por um cara inglês, que por sua vez se baseou em um conto italiano de quase 500 anos atrás. Então quando uma história é universal ela chega nas pessoas inevitavelmente. O que eu não gosto é quando você pega uma história de Shakespeare e se preocupa muito mais com a adaptação do que com o sumo da obra. O importante é você falar da natureza humana e dos seus vários conflitos e não focar em qual cenário novo vai ser contada uma determinada história, entendendo o que é de fato universal na obra e mantendo o diálogo e a conexão com o público, seja ele quem for.

3) Em relação a processo de trabalho, como você observa o seu caminho entre o trabalho
de ator em uma companhia teatral e o trabalho do ator em uma trajetória de criação, produção e realização próprias, tendo em vista sua jornada na Companhia dos Atores e esse seu último projeto?


Gustavo Gasparani: Eu trafego bem em vários ambientes, na verdade. Eu dou aula de teatro em um colégio há 25 anos, eu faço alguns trabalhos no Jornal O Globo há 10 anos e agora eu fui contratado pela Aventura Entretenimento. Eu não vejo nenhum problema transitar entre um lugar considerado mais “de mercado” e outros segmentos diferentes. E independentemente do espaço, o teatro me chama sempre. Eu sempre quis ser ator. E para isso comecei a escrever para começar a fazer os personagens que eu queria fazer, comecei a produzir, a dirigir e com isso as pessoas me chamaram para fazer diversos trabalhos. Eu acho que eu consigo manter isso do teatro: essa essência de coletivo e de grupo em cada montagem e em cada lugar que eu vá. E essa observação eu noto também na minha equipe de trabalho. Eu, por exemplo, não gosto de ator que entra na marcação certa sem saber o motivo. Eu gosto de atores que pensem, que tragam uma história e um pensamento, e isso tem muito a ver com uma trajetória de vivência em teatro. A própria Companhia dos Atores surgiu da união de atores que pensavam muito dessa forma também: que queriam fazer teatro sem esperar que alguém os convidasse para alguma coisa. E atrás do meu sonho, vou a qualquer lugar. Eu acredito nisso.

4) Você tem vontade ou idéia de fazer um novo projeto que tenha uma linguagem parecida com a que vocês adotaram agora em Ricardo III?

Gustavo Gasparani: A princípio não, mas eu acredito que essa foi uma daquelas experiências que abre janelas na vida do artista. E muitas vezes quando eu estou fazendo uma peça eu já começo ter ideias para a próxima. E claro que textos do Shakespeare eu quero fazer muito. Ele fala de uma forma tão universal e que me interessa tanto que com certeza quero fazer mais. Esses textos clássicos tem muito a nos dizer e acredito que esse é um lugar que eu nunca quero sair.

Adriana Sá Moreira
Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero.
Publicitária pela ESPM e Atriz pelo Célia Helena-Teatro Escola.
Entusiasta do universo teatral com suas histórias e transformações.
Fundadora e editora de conteúdo do AmoTeatro.



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