04 de agosto de 2015

Lançamento do Livro a Broadway Não é Aqui, de Gerson Steves

Por Adriana Sá Moreira

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Gerson Steves (à esquerda) ao lado de Roney Facchini no musical Urinal, em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental.
Foto: Ronaldo Gutierrez



O AmoTeatro entrevistou o ator e pesquisador – para destacar duas de suas muitas facetas profissionais – Gerson Steves. Em cartaz, atualmente, com o espetáculo “Urinal - o musical”, ele lança no dia 11/08, no Espaço Parlapatões, sua primeira publicação como autor: A Broadway Não é Aqui - Panorama do Teatro Musical no Brasil, originada a partir da sua dissertação de mestrado pela Faculdade Cásper Líbero. O autor propõe pensarmos o teatro musical produzido no Brasil como forma de despertar um novo olhar e um novo entendimento dos espetáculos atualmente em cartaz.

Sobre o momento em que se encontra em sua carreira, Gerson explica que seu “livro é um primeiro passo. E um convite para que outras pessoas deem passos a partir dele. A gente precisa criar mapeamentos do teatro musical no Brasil – e do Brasil. E também, pelo Brasil todo. É preciso que se digitalizem as fotos e reportagens engavetadas há muito tempo, e que elas sejam disponibilizadas nas redes e nos veículos de informação para que seja possível saber mais sobre o que se fez e se está fazendo em teatro musical no Brasil.

Tudo que eu faço e tudo que eu fiz, a única coisa que eu tenho como certa e que me norteia, é que sou um homem do tablado. E não quero me afastar do tablado nunca. Seja escrevendo, lendo, estudando, ensinando, seja como for. Mas não quero me afastar do tablado. O que fica é a precisão com que as tablas se unem: a beleza que você vê quando senta na plateia e enxerga as tablas unidas, uma ao lado da outra, intercaladas da beirada do proscênio até o fundo do palco. E aquele solo se torna, naquele momento, sagrado.”

AmoTeatro: Como iniciou sua trajetória como entusiasta pelo teatro musical?

Gerson Steves: Eu sempre fui um apaixonado por musicais, de um modo geral. Sou de uma geração que viu todos os grandes musicais do cinema norteamericano dos anos 1930, 40 e 50. Trabalhos de Gene Kelly, Fred Astaire, Ginger Rogers, Judy Garland, Mickey Rooney, enfim, todos aqueles musicais da MGM e da Paramount, que passavam na televisão. E, depois, comecei a ver os filmes de Jerry Lewis e de Elvis Presley, que alguns eram musicais ou musicados. Enfim, esse universo do filme cantado e dançado fez parte da minha formação de apreciação cinematográfica e eu descobri o musical no cinema, antes de descobrir no teatro. E isso foi determinante para o meu olhar para a arte.

Fui fazer minha formação acadêmica: primeiro em propaganda, marketing e jornalismo; só depois fui para o teatro. E no teatro me aproximei primeiro dos textos brasileiros e dos clássicos (tanto na escola quanto profissionalmente), sempre envolvido no teatro dito ‘convencional’, mas nunca deixando de gostar de cinema musical. Só fui ter contato com o musical de Broadway no começo dos anos 90, quando fui efetivamente trabalhar em Nova Iorque, com o Teatro do Ornitorrinco, fazer o espetáculo Sonho de Uma Noite de Verão.

Desde essa época sempre procurei assistir, pesquisar e estudar sobre os musicais e suas características. Também sou de um tempo em que as publicações internacionais não chegavam fácil aqui no Brasil ou tinham poucas boas traduções dessas publicações feitas aqui no Brasil. Mesmo as publicações de teoria teatral eram, em sua maioria, realizadas em português de Portugal, vindas das livrarias e editoras portuguesas. Foi a partir dos anos 1990, que esse cenário também começou a mudar.

Parte da minha carreira, eu fiz, também, como professor: dando aulas de interpretação, história do teatro e teatro brasileiro. Com isso, comecei a buscar a relação do teatro brasileiro com os momentos históricos da produção dramatúrgica e esbarrando nessas muitas influências que o Brasil foi recebendo ao longo da sua trajetória.

AmoTeatro: Qual foi a sua motivação pessoal (ou profissional) para, em primeiro lugar, realizar essa pesquisa e, depois, transformá-la em uma publicação editorial?

Gerson Steves: Um belo dia abro o jornal e leio a seguinte frase: “A Broadway é Aqui”. Estava começando a acontecer em 1995 e 1996 um boom de teatro musical aqui no Brasil, principalmente por conta da chegada da CIE (atual Time For Fun) no Brasil. E, ao me deparar com essa manchete, ao longo do texto vejo também a frase “Não devemos nada para a Broadway!”. E eu fiquei pensando: “Mas nós temos que dever alguma coisa para a Broadway? No que eles são melhores? E, nós, não somos tão bons? Por que a Broadway é aqui? Ela não é aqui!”. E com isso comecei a investigar essa questão a fundo e decidi fazer um mestrado.

Inicialmente o meu projeto de mestrado era sobre crítica teatral, procurando dissertar sobre críticas teatrais nos meios de internet, mas esse viés acabou não me satisfazendo como pesquisador e propus ao meu orientador, Professor Claudio Coelho (Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo - USP e professor titular da Faculdade Cásper Líbero), que eu fizesse uma pesquisa sobre as relações existentes entre o teatro musical de Broadway e o musical brasileiro. Ao desenvolver essa pesquisa, comecei a inserir nesse contexto o universo da espetacularização da mídia, a fazer cruzamentos dessas informações com as questões do marketing cultural, a olhar as relações com o atual contexto histórico da nosso produção cultural. Especialmente no que diz respeito à influência que os departamentos de marketing das empresas acabam exercendo sobre essa produção, a ponto de determinar o que vamos ou não assistir. E essa discussão começou ficar cada vez mais clara e pulsante na minha cabeça, resultando na minha dissertação e, agora, em livro.

AmoTeatro: No universo cultural, percebemos que muito do que é realizado está marcado pelo esvaziamento de diversos conceitos como por exemplo: formação de platéia, acesso cultural, marketing cultural, entre outros. Ou, ainda, não corretamente aplicados. Você acha que o teatro musical que é feito aqui no Brasil está inserido num contexto de práticas e conceitos esvaziados de seus reais significados? Ou você acha que ele consegue se distanciar um pouco dessa atual condição do universo cultural?

Gerson Steves: Na terceira parte do meu livro, eu apresento um olhar crítico sobre este momento histórico que a gente vive, sobre a produção de um teatro musical que se insere no universo mainstream, envolvido por regras muito claras de competitividade, de inserção na mídia, de marketing, de negócio, de produto, de indústria (não só de indústria cultural, mas de indústria como um processo sustentável de produção).

Por outro lado, falo de uma produção de teatro musical que também procura ser sustentável, só que com muito menos apelo mercadológico e, claro, dinheiro. Uma produção que se alinha com um jeito mais brasileiro de se fazer teatro musical e que acaba sendo paralela a esse primeiro universo, o mainstream. É um universo muito rico, envolvendo companhias como o Núcleo Experimental, a Cia da Revista ou o Tablado de Arruar. Todos esses grupos, e muitos outros, estão investigando a linguagem do teatro musical nos vários níveis da sociedade em que se inserem e buscando, sim, formação de público, engajamento e uma voz dentro de um contexto dominado pela grande mídia que, muitas vezes, não dá voz para companhias teatrais como essas.

Esses grupos e espetáculos correm o risco de serem esquecidos daqui a trinta anos, quando as pessoas quiserem pesquisar qual foi o teatro musical que se produziu no Brasil em 2014/15. Porque as pessoas saberão somente o que foi divulgado na grande mídia. Recentemente, eu percebo que, talvez, essas companhias estejam começando a encontrar espaço e voz – e isso é ótimo. Mas voltando ao livro, na terceira parte dele eu lanço um olhar panorâmico sobre o que é considerado mainstream (como por exemplo, produções de Jorge Takla, Miguel Falabella, Charles Möeller e Claudio Botelho), e o que não é considerado mainstream (como os trabalhos musicais do Zé Henrique de Paula, do Kleber Montanheiro, da Regina Galdino, da Roberta Estrela D’Alva).

Parece claro que essa produção mais mainstream se utiliza de um apelo do tipo “Não devemos nada a Broadway! “ ou ainda “Venha consumir um produto internacionalizado que você consumiria se você fizesse uma viagem a Nova Iorque!”. A palavra Broadway virou chancela, é griffe que designa um determinado tipo de produto .

Porque nessas produções o público sabe que vai encontrar pessoas que cantam com o belting especifico das produções nova-iorquinas (que iguala a voz de todo mundo). Vai ver gente dançando coreografias iguais às da Susan Stroman, que são vigorosas e criativas, mas que estão alinhadas a um jeito muito americano de dançar. E a um jeito muito americano de produzir e consumir entretenimento. Enquanto isso, o nosso musical, que também é entretenimento, mas com um olhar mais interno, ele pode ser muito mais libertário, muito mais jocoso, muito mais picante e divertido do que qualquer entretenimento ‘para toda a família’ que os americanos possam produzir.

SERVIÇO DO LANÇAMENTO DO LIVRO
TÍTULO: A Broadway Não é Aqui – Panorama do Teatro Musical no Brasil
AUTOR: Gerson Steves
EDITORA: Giostri
LANÇAMENTO: dia 11 de agosto de 2015 – terça-feira, a partir das 19 horas
LOCAL: Espaço dos Parlapatões – Praça Roosevelt, 158 – Bela Vista – SP


Adriana Sá Moreira
Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero.
Publicitária pela ESPM e Atriz pelo Célia Helena-Teatro Escola.
Entusiasta do universo teatral com suas histórias e transformações.
Fundadora e editora de conteúdo do AmoTeatro.



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