23 de abril de 2015

Visitando Sr. Green

Por Adriana Sá Moreira

tags: estreia opiniao



O texto de Jeff Baron, “Visitando Sr. Green”, ganha nova montagem com a direção de Cássio Scapin e com o elenco formado por ninguém menos que Sergio Mamberti e Ricardo Gelli. O retorno dessa peça a São Paulo marca o reencontro de Cássio Scapin não somente com o texto – já que atuou na primeira montagem em 2000 com o saudoso Paulo Autran – mas também com Sergio Mamberti, com quem fez o programa “Castelo Rá-Tim-Bum” , transmitido pela TV Cultura e um marco na teledramaturgia brasileira.

Sergio Mamberti apresenta também com esse espetáculo a sua volta aos palcos, depois de mais de 11 anos de envolvimento e compromisso com o Ministério da Cultura. A motivação dessa nova montagem veio de vontade de Sergio Mamberti trabalhar novamente com Cássio Scapin, de seu desejo de homenagear o grande Paulo Autran e de estar novamente fazendo do seu oficio de ator, a sua arte. “É a minha volta ao palco. Eu me apaixonei pela peça e uma das minhas razões para montá-la é a minha vontade de homenagear o Paulo (Autran). Estou fazendo 59 anos de carreira. O dia da estreia é o dia do meu aniversário e completo 76 anos.”

O espetáculo conta ainda com Ricardo Gelli, que pela primeira vez trabalha com Cássio e Sergio. O ator, que segundo Cássio tem “sangue nos olhos”, já participou de espetáculos de autores como Luis Alberto de Abreu, Henrik Ibsen e Jean Genet – sendo inclusive reconhecido e premiado pela sua atuação em “Genet - O Poeta Ladrão”, em 2014. Esse novo trio realiza uma nova vivência desse texto e promete uma temporada em São Paulo com uma história envolvente e que pode promover muitas emoções.

A peça apresenta a história da aproximação de dois opostos: o solitário, nova-iorquino, idoso e judeu Sr. Green com o jovem executivo Ross Gardner. Esse embate acontece devido a uma pena de prestação de serviços comunitários a ser cumprida por Gardner, por conta da sua negligência na direção (que quase gerou um acidente) averiguada e condenada pelo juiz Kruger. A pena caracteriza-se pela realização de visitas semanais de Gardner ao apartamento do Sr. Green, por seis meses. Vendo essa situação, já é possível prever que essas visitas não serão isentas de conflitos, desconfianças e descobertas de ambas as partes.

Com isso, fica evidente a presença de muitos diálogos que ficam na linha tênue entre a tristeza e a alegria, muito pela diferença de gerações desses personagens. Mas além disso, a peça trabalha com sensibilidade a temática da intolerância através da demonstração de dois pontos de vista distintos que não se respeitam. E esse aspecto que orienta a história é um dos elementos que a torna significativa e universal. Ou seja, é possível identificar-se com os assuntos apresentados e refletir sobre esta temática, porque tudo isso está presente no nosso cotidiano. É absolutamente perceptível a presença de discursos que não asseguram o respeito e a posição contrária e a inflexibilidade de entender uma escolha diferente de uma outra pessoa, seja referente a aspectos políticos, religiosos, sociais ou ainda pessoais.

Cássio Scapin declara ainda que as questões que a peça apresenta são muito pertinentes nos dias de hoje e na nossa sociedade, mesmo que o texto tenha sido escrito na década de 1980 em Nova Iorque. “O assunto (da intolerância) está um pouquinho transformado. A gente conseguiu alguns avanços, mas também por conta desses avanços, acabamos vivenciando hoje em dia alguns radicalismos de opinião. Então essa temática continua sendo plausível e pertinente nesse momento. Eu acho que este texto fala sobre pontos de vista radicais, ou seja, quando você escolhe um ponto de vista radical e não respeita a opção do outro, seja ela uma escolha: religiosa, sexual ou racial. Então por conta desses radicalismos de opinião que vivenciamos hoje em dia, é importante se retomar essa discussão do respeito da opção alheia, seja ela qual for.”

Dessa forma, “Visitando Sr. Green” volta a ser encenada na cidade de São Paulo de uma maneira muito especial. Além de ser uma trama poderosa que vai entreter e emocionar, ela propõe uma homenagem a um dos maiores atores da nossa história – Paulo Autran – um novo trabalho dos talentosos Sergio Mamberti, Cássio Scapin e Ricardo Gelli e, como bem disse Cássio, uma “célula de discussão” sobre assuntos tão delicados e importantes de serem refletidos e transformados em arte.


Adriana Sá Moreira
Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero.
Publicitária pela ESPM e Atriz pelo Célia Helena-Teatro Escola.
Entusiasta do universo teatral com suas histórias e transformações.
Fundadora e editora de conteúdo do AmoTeatro.



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